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A deriva da crueldade


Pedro Cláudio Cunca Bocayuva*



Vivemos diante do fogo que consome o cerrado, diante da devastação no sul do Brasil, das guerras e de cercos e bombardeios, como na Ucrânia ou em Gaza, dos ataques contra direitos e da guerra contra as populações de favelas e periferias, da loucura dos ilegalismos e da criminalização das subjetividades corporificadas das vitimas. Neste quadro de multiplicação de desastres, a crueldade negacionista resulta no aumento do brutalismo.


P. C. Cunca Bocayuva, sem título, série Catástrofe.


A pulsão de morte é deformada pelas máquinas de agenciamento e enunciação do estado de guerra, que atualizam os cenários devastadores da regressão micropolítica. Vamos acelerados na direção da catástrofe apoiada nos regimes policiais e da politica como multiplicação de guerras civis.  O cenário de escombros é o efeito da arquitetura da destruição, que faz das ruínas da modernidade o túmulo das utopias. As grandes devastações e morticínios bélicos, ambientais e das epidemias parecem ampliar a destruição dos resíduos da modernidade, como uma repetição piorada dos desastres do século XX. O tema da destruição mútua acelerada acompanha o retorno da interrogação iniciada na reflexão sobre a obsolescência do homem.


A acumulação de poder na dupla face da desmedida capitalista e da guerra é mediada pelo neofascismo, como desdobramento sempre atualizado da lei tendencial do incremento da força destrutiva dos limites da autonomia e autodeterminação da sociabilidade. A decadência da integração social destrói os resíduos da democracia.


A crise ecológica social, ambiental e mental coloca em questão a condição humana, mas a falsa consciência das transições instrumentais nos mantém impotentes diante da catástrofe. A razão cínica instrumental já se perdeu e destruiu a esperança de uma transição virtuosa de mercado e a nova extrema direita é o efeito deste pensamento fraco.


Será que não precisamos avançar um pouco mais na construção do diagrama do risco?  A modernidade líquida avança sobre os consensos até então existentes no plano simbólico da dominação racional-legal. A onda regressista do neoliberalismo, inaugurada no golpe de 1973 no Chile, se expandiu na atualização desdobrada da “guerra contra o terror” depois de 2001. O impulso que destrói as instituições e as ideologias do progresso e do Estado de Direito acaba com o modo de dominação e com os pactos que produziam o horizonte de velamento que ainda servia para conter a desmedida da violência.


A agenda da “guerra civil mundial” está sobredeterminada pela condição pós-moderna do capitalismo de vigilância que hipertrofia as máquinas de espetacularização. A “batalha dos afetos” alimenta o narcisismo das pequenas diferenças e a construção criminalizadora do “inimigo”. Desta forma, vemos na cena contemporânea o atualizar das formas que estruturam o imaginário neofascista, pela via da violência sem véus como banalização da crueldade sintetizando a contrarrevolução patriarcal, classista e racista.


A passagem ao ato violento é como o “mal objetivado”, que acompanha as dimensões mórbidas da vida coletiva com a mobilização das hordas das subjetividades amedrontados, paranoicas e bestializadas.


Habitados pelos espectros do fim do mundo, somos tomados pelos fantasmas que ganham corpo nos corações e mentes, por força do desamparo, do medo e da pulsão de crueldade que acompanham a sensação de perda face ao endividamento, à expulsão e à espoliação.


O encarceramento em massa, os muros, as cercas, os campos, os desaparecimentos e a dor fazem com que os mortos nos governem. Nenhum limite serve de parâmetro quando são rompidos os véus de contenção do tipo “não matarás”. A fúria produz a paralisia do sentimento de assombro através da ação combinada do medo, dos traumas e do retorno dos processos reprimidos.


A objetividade de Gaia não consegue se impor como chamada ao realismo, embora o fetichismo da ordem não obscureça mais o fato de que nos afundamos na catástrofe em meio ao negacionismo. Não será o “niilismo” uma categoria que permite desvendar a crueldade manifesta que rompe com os véus e mergulha na pulsão para a aniquilação?


Estamos diante do poder das falsas profecias alimentadas no espelho da monstruosidade mórbida.  A catástrofe é o conceito chave, a crueldade é noção que retrata a forma que molda o processo de destruição e o niilismo uma noção necessária, aquela que desvenda a síntese da dialética do negativo.  


Assistimos ao esgotamento da acumulação ilimitada de capital como totalizador impossível, que se desdobrou na onda da modernidade tardia através do Estado de Exceção e, pela multiplicação das guerras, nos forçando a trabalhar a leitura critica da cena atual a partir dos rastros da noção de barbárie.


 

Estas breves reflexões levam em conta as interrogações do Grupo Trauma e Catástrofe e fazem parte de um diálogo que fazemos. Levo em conta as instigantes reflexões de Joel Birman e Marildo Menegat que se destacam na coragem de pensar a relação entre guerra e catástrofe no século XXI, desde a psicanálise e a filosofia.

 

*Pedro Cláudio Cunca Bocayuva é professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ.

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