CÍRCULO DE GIZ             REVISTA MULTIDISCIPLINAR DE ARTES E HUMANIDADES            ISSN 2696-9020

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REVISTA CÍRCULO DE GIZ

número 1 - 2015
 
versão digitalizada do original impresso
(ISSN 2446-757X)

SUMÁRIO​
(acesse o artigo clicando no título)


Uma viagem sem destino: o conceito de liberdade em Easy Rider
Eduardo Gusmão de Quadros
RESUMO │A simbologia da viagem geográfica como uma conquista de si permeia a literatura universal, ao menos, desde Homero. Na década de sessenta do século passado, o ambiente da contracultura estimulou a busca de alternativas aos padrões da sociedade capitalista hegemônica, o que pode ser visualizado através do filme Easy Rider (Sem Destino, em português), dirigido por Denis Lee Hopper em 1969, com roteiro de Peter Fonda. Ambos encarnarão como atores os jovens protagonistas deste Road Movie que retrabalha os valores da sociedade americana, em especial, o mito fundador de ser a “terra da liberdade”. Investigaremos como este conceito iluminista, e os confrontos que desperta, foi abordado na narrativa fílmica.
PALAVRAS-CHAVE │Contracultura; Juventude; Liberdade; Viagens.


"O porto é a porta": um breve per-curso do encontro entre a antropologia e a teologia presentes na prosa de Clarice Lispector
Alessandra Serra Viegas​
RESUMO │O artigo a seguir apresenta uma análise sucinta das obras Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres e A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, sob um elemento peculiar às duas leituras: o encontro entre a questão antropológica – que demarca o conhecimento, o cuidado e a aceitação de si e do outro – e o pensamento teológico – que se manifesta no conhecimento de Deus (do Deus, como Clarice costuma nomear), a partir da ‘humanidade do mais humano’ presente em ambas as obras. De fato, o texto bíblico do profeta Isaías ilustra o que se quer (d)escrever nas linhas abaixo, isto é, conseguir ver a Deus está intrínseca e corolariamente imbricado a ver-se a si mesmo: “ai de mim, que estou perdido! Pois sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram ao Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is. 6,5). Eis o ‘encontro feliz’ de Clarice.
PALAVRAS-CHAVE │Teologia; Literatura; Antropologia; Clarice Lispector.


Calabar e o questionamento à imagem indianista do Brasil
Louise de Lemos Azevedo​
RESUMO │O artigo se debruça sobre a obra dramatúrgica Calabar, de Agrário de Menezes, escrita em 1858, a primeira no Brasil a apresentar como protagonista uma personagem negra, para discutir as proposições simbólicas da peça no que diz respeito aos conflitos raciais envolvidos na formação da identidade brasileira pós-independência. A obra é uma ficção histórica que recria a personagem Calabar e as motivações que o levaram a trair o exército português durante o período das invasões holandesas ao nordeste brasileiro. O artigo investiga o processo de ficcionalização da personagem relacionando-o com as possíveis proposições e provocações políticas da obra por meio da motivação que direciona a ação dramática do texto: a traição.
PALAVRAS-CHAVE │Dramaturgia; identidade brasileira; teatro histórico.


Rui Nunes: uma poética da desconstrução narrativa e da fragmentação do "eu"
Maria João Cantinho
RESUMO │A obra do escritor português Rui Nunes tem vindo a afirmar-se pela sua singularidade, no campo da literatura portuguesa contemporânea. Avessa a cânones e ao facilitismo que tanto pontua hoje o romance, o autor não faz concessões de espécie nenhuma, primando a sua obra por um carácter de radicalidade, quer no que respeita ao trabalho de linguagem, quer quanto aos temas abordados: solidão, morte, doença, etc. A desconstrução do texto como ele é tido tradicionalmente marca a sua escrita, transformando-a num texto fragmentário e alegórico, descontínuo e que recusa o paradigma do narrativo na literatura.
PALAVRAS-CHAVE │Alegoria; Rui Nunes; Literatura contemporânea.


O Islã das trevas no gótico americano: motivos sufistas nas estórias de H. P. Lovecraft
Ian Almond
RESUMO │O presente ensaio faz uma descrição analítica da ressonância de temas islâmicos na ficção de Howard Phillips Lovecraft. Para tanto, primeiro examina o lugar sociopolítico do Islã como um topos nas estórias de Lovecraft. Em seguida, analisa a possibilidade de que Cthulhu e os outros deuses obscuros da mitologia lovecraftiana, com secretos planos de invadir e subverter a realidade humana, serem uma espécie de ressurgimento de um familiar medo cristão do Turco terrível às portas de Viena; desta vez, entretanto, situado na Nova Inglaterra ao invés de Tours ou de Lepanto. Finalmente, faz-se uma leitura de Através dos Portões da Chave de Prata, que é uma das estórias mais orientais de Lovecraft, reinterpretando suas referências desde a perspectiva do sufismo.
PALAVRAS-CHAVE │ H. P Lovecraft; Mitos de Ctchulhu; Representações do Islã; Misticismo e literatura; Sufismo.


Aryara contra os Filhos da Noite: fantasia e ciência em um conto de Robert E. Howardt
Alfredo Bronzato da Costa Cruz
RESUMO │O objetivo do presente trabalho é apontar como na narrativa de Os Filhos da Noite, de Robert E. Howard, publicado originalmente em 1931 pela revista Weird Tales, marcada pela regressão e/ou alucinação, imbricam-se temas da literatura fantástica e da discussão antropológica do começo do século XX.
PALAVRAS-CHAVE │ Ciência e literatura; Fantasia e terror; Alucinação e verossimilhança; Racismo científico.


Pesadelos dionisíacos: natureza, sexo e medo na literatura brasileira
Júlio França e Daniel Augusto P. Silva
RESUMO │O ensaio tem como objetivo investigar as relações entre natureza, sexo e medo na literatura. Inicialmente, propõe-se uma reflexão crítica sobre o tema, a partir dos trabalhos do Marquês de Sade, de Sigmund Freud, de Georges Bataille e de Camille Paglia. Procurou-se mostrar como o sexo pode ser tomado como a manifestação primordial das forças naturais no homem, sendo exatamente o ponto de contato da humanidade com seu lado mais dionisíaco, primitivo e, diversas vezes, perverso. Na modernidade, essa potência cruel do sexo foi frequentemente entendida como uma ameaça à razão e à organização social. Para ilustrar como a imbricação entre natureza humana, sexualidade e horror vem se tornando um topos da ficção ocidental, tomaram-se quatro narrativas ficcionais brasileiras: "Noite na taverna" (1855), de Álvares de Azevedo, “Noivados trágicos” (1898), de Medeiros e Albuquerque, “Dentro da noite” (1910), de João do Rio, e “O espelho” (1938) de Gastão Cruls.
PALAVRAS-CHAVE │ Literatura gótica; Horror; Sadismo; Perversões sexuais; Femme fatale.


O Dao está no torno do oleiro
André Bueno
RESUMO │No âmbito da arte chinesa, a cerâmica cumpre uma função única: ele conecta uma concepção erudita de estética, própria dos escolares, com o trabalho anônimo do ceramista, que a transforma e a populariza, por meio do refinamento no trabalho com a argila. Nesse breve texto, buscaremos apresentar como as concepções de arte próprias da civilização chinesa difundem-se e atingem uma ampla vulgarização, através das mãos dos artesãos anônimos, que descobriram as fórmulas da porcelana e da cerâmica fina, manifestando os aspectos mais sensíveis da mentalidade artística chinesa.
PALAVRAS-CHAVE │ Arte chinesa; Estética chinesa; Cerâmica.


Estética do entrelugar: sujeito, crítica e obra de arte entre Benjamin e Lacan
Marcelo Fonseca Alves
RESUMO │O presente artigo busca ensaiar uma aproximação dos pensamentos de Walter Benjamin e Jacques Lacan, a partir das noções de sujeito, crítica e obra de arte, como dispostos na tese de doutorado de Benjamin. Em suma, a proposta é acenar com a possibilidade de que o percurso benjaminiano sobre a noção de crítica no romantismo alemão seja lido a partir do referencial teórico da psicanálise lacaniana, uma vez que o evanescente sujeito que se vislumbra na fresta entre os níveis da reflexão parece-nos compatível com o sujeito do inconsciente, apreendido “só-depois”, justamente a partir dos traços restantes da reflexão, qual seja, nos românticos, segundo a leitura de Benjamin, a obra de arte.
PALAVRAS-CHAVE │ Obra de arte; Sujeito; Crítica; Walter Benjamin; Jacques Lacan.


Colagem: uma poética do choque
Leonardo Cesar do Carmo
RESUMO │O objetivo deste artigo é discutir as colagens do cineasta Luiz Rosemberg Flho (1943 - ) como narrativas de cinema. O princípio destas colagens é o mesmo da montagem das atrações, um conceito criado pelo cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948), em que a condensação de imagens em um único frame permite uma visão dialética da sociedade. Com base no conceito de imagem dialética de Walter Benjamin (1892-1940), argumenta-se que as colagens são uma prática materialista de escrita da história em que o método da montagem das atrações possibilita que se obtenha uma tripla fusão de performances, fotografias e sons.
PALAVRAS-CHAVE │ Montagem das atrações; Imagem dialética; Luiz Rosemberg Flho.


Tempo e eternidade: o efêmero, o utópico e o trágico
Diogo Cesar Nunes
RESUMO │Eterno é aquilo que, reinventado a cada nova situação, persiste. No plano da existência ou da insistência, a eternidade revela a tragicidade da temporalidade humana. Por outro lado, revela também que é por conta de seu caráter efêmero que a vida humana, no tempo, adquire sentido: porque efêmera, a vida é potência, inclinando -se sempre ao porvir. Cada obra da criação humana é, assim, temporal e eterna, porque grávida de tempos múltiplos, insistentes e persistentes, a atualizar os futuros sonhados no passado.
PALAVRAS-CHAVE │ Tempo; Efêmero; Utopia; Eternidade; Temporalidade.