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CONTINUAÇÃO: O CICLO VIRTUOSO DO DECRESCIMENTO

Lina Raquel de Oliveira Marinho*


OS 8 "ERRES": REAVALIAR, RECONCEITUAR, REESTRUTURAR, REDISTRIBUIR, RELOCALIZAR, REDUZIR, REUTILIZAR, RECICLAR.


A lógica do capital sendo simples, porém brutal, trata de gerar valor para gerar mais valor, e assim sucessivamente. Isso porque a forma valor do capital é aquela que dá ao abstrato valor de uso e de troca para promoção do lucro e da acumulação. O que percebemos na atualidade é que as formas valor se tornaram autônomas em relação ao sujeito e passaram a imprimir mais valor a despeito da necessidade real do sujeito de possuir mercadorias com cada vez maiores valores de uso e troca. Um contexto onde as mercadorias anteriores perdem de maneira intencionalmente programada o seu valor prévio a partir do mais valor gerado e disposto em uma nova mercadoria.


As mercadorias passam a conter elementos que extrapolam a supressão do necessário; elas passam a conter a impressão de que ainda não atingimos o necessário, talvez até pior, elas passam a conter a impressão de que não há limites necessários à existência, e que o necessário é o contínuo extraordinário e a inovação, de pequeno cunho social talvez, mas de extremo valor mercantil, e, portanto a serviço deste sujeito automático do capitalismo e sua forma valor.


Segundo Gorz (2010), estamos condicionados à dominação econômica do capital, e acreditamos que o crescimento é sempre um meio indispensável para a produção e para o trabalho, de modo que ambos se encontram submetidos às normas de eficácia do capital, ou seja, sempre mais e sempre mais rápido. Neste sentido, o autor esclarece que a ideia de uma medida suficiente, de um limite que demarcasse aquilo que produzimos e consumimos para além do necessário e em demasia, não pertence nem à economia e nem à imaginação econômica do capital.

"Para que possamos autodeterminar nossas necessidades, e nos acertar a respeito dos meios e da maneira de satisfazê-las, é indispensável que recuperemos o controle dos meios de trabalho e das escolhas de produção. [...] É o fato de as relações de dominação serem inerentes ao modo de produção industrial – que continuam estruturalmente capitalista mesmo quando a indústria é “coletivizada” – que explica a persistência de utopias nostálgicas que relacionam Decrescimento, desindustrialização, retorno às economias primitivas, comunitárias e/ou familiares, largamente autárquicas, cuja produção é essencialmente artesanal". (GORZ, 2010, p. 61).

"O Decrescimento da economia fundada sobre o valor de troca já ocorre e se acentuará. A questão é apenas a de saber se ele vai tomar a forma de uma crise catastrófica ou a de uma escolha da sociedade auto-organizada. Fundando uma economia e uma civilização além do salariado e das relações mercantis, cujos princípios terão sido semeados, e os instrumentos, forjados por experimentações sociais convincentes". (GORZ, 2010, p. 60).


“Erres” inerentes à própria ideia decrescentista, o reestruturar e o reduzir esperam, a partir deste círculo virtuoso, poder superar as próprias máximas da sociedade do valor: a produção crescente ilimitada e contínua e a necessidade primária socialmente constituída e instituída de significarmos toda a existência pela dimensão do trabalho, posto que este seja o único capaz de gerar valor, e que representaria no mercado de trocas as mercadorias que significariam nossa subjetividade e mundanidade.


Reduzir seria desde o “erre” mais imediatamente exequível do todo o círculo, até o “erre” mais retórico e propriamente decrescentista: reduzir é naturalmente decrescer prontamente os níveis de consumo, produção, viagens, horas de trabalho, crescimento e acúmulo, por exemplo, aliado à reestruturação de nossas realidades produtivas, de nossa relação com o trabalho e os bens de consumo que gera, com a noção de suficiente, abundância frugal e prosperidade.


A redução das horas trabalhadas precisará contar com novas maneiras e propósitos de se distribuir o trabalho em meio às experiências e circunstâncias socioeconômicas da vida cotidiana para que assim todos os que quiserem possam possuir um emprego. É preciso que esta redução combine possibilidades conjunturais de mudanças de atividades e ramos periódicas, assim como alterações e determinantes da vida pessoal do sujeito. O trabalho precisaria adquirir um caráter mais temporário e plural, convergindo demandas e necessidades de maneira mais imediata e suficiente em curto prazo, do que de maneira cumulativa e excedente em longo prazo. (LATOUCHE, 2009).


Os dois últimos “erres”, que são propositadamente explorados nesta ordem progressiva da transformação desejada e pretendida, são: reutilizar e reciclar. Estes “erres” mais especificamente vislumbram o combate ao desperdício, à obsolescência programada dos equipamentos em geral, tal como mencionado nisto da máxima do mais valor a ser gerado a despeito das necessidades dos sujeitos, e a reciclagem dos resíduos não reutilizáveis diretamente. São diversos os exemplos por parte de negócios de distintos ramos onde estas práticas do reutilizar e do reciclar já acontecem mais diretamente e de maneira bastante vantajosa: já existem fibras de nylon indefinidamente recicláveis, estofamentos que se decompõem de maneira natural, carpetes que podem ser reutilizados como cobertura vegetal para jardins por serem também compostos de matéria orgânica. Segundo Latouche (2009), o que faltam são incentivos aos “produtores” e aos “consumidores” para que tomem a via por ele chamada de virtuosa; o que faltaria é vontade política de colocar estas ações em prática. Como nos coloca o autor “é um outro mundo, desejável, necessário e possível se assim quisermos.” (LATOUCHE, 2009, p. 55).


De toda forma, há que se ter um cuidado dialético e crítico, posto que se trata de ir além dos atuais moldes das economias verdes e do próprio capitalismo sustentável, e por isso cuidadosamente destaquei acima entre aspas os papéis e funções sociais tais como os conhecemos e concebemos de produtores e consumidores. Ou seja é preciso partir do pressuposto de que seriam dimensões decrescentistas já previamente reavaliadas, reconceituadas, redistribuídas e relocalizadas. Quero dizer: se seguirmos sendo a sociedade de trabalhadores e consumidores que somos, reciclagem e reutilização de muito pouco a praticamente nada produziriam de mudanças radicais plausíveis e talvez até desejáveis. Seria o mesmo que, uma vez reduzidas as horas de trabalho, fôssemos todos ocupar nosso agora maior tempo livre e disponível com consumo, por exemplo...!


"[...] o prazer de cumprir seu dever de cidadão, o prazer das atividades de fabricação livre, artística ou artesanal, a sensação do tempo recuperado para a brincadeira, a contemplação, a meditação, a conversação, ou até, simplesmente para a alegria de estar vivo". (LATOUCHE, 2009, p. 54).


Mas isto, exploraremos em breve e para falarmos de maneira específica sobre aquela e suas contradições internas, e que fará, por sua vez, das alternativas ou possibilidades, ora saídas e mecanismos de superação, ora de manutenção do status quo: a sociedade do valor no capitalismo, por ela mesma e o Decrescimento.


Um “erre” central e imanente em todos os outros e presente também no ato de liberdade (autonomia) e ética do sujeito: “no centro do círculo virtuoso da revolução cultural dos oito ‘erres’ está um ‘erre’ que pode ser encontrado em cada um deles: resistir.” (LATOUCHE, 2009, p. 58). Resistir ao mundo dado e que nos assujeita diante da forma valor, tomá-lo sempre como o outro e, portanto, oportunidade única de entrarmos em maior e melhor contato conosco, e sabermos a respeito de nossa própria subjetividade, e então agirmos, logo naturalmente livres, e potencialmente éticos, a despeito da objetivação do outro, dando, portanto, cumprimento à própria originalidade do conflito, e em plenitude com nossos verdadeiros projetos.


O mundo é uma extensão daquilo que percebemos dele a partir da nossa própria extensão nele conforme nossa liberdade, ou o mesmo que nossa ação, e cujas emoções são também formas de agir no mundo; assim como o sujeito e o real, as emoções adquirem significado conforme a consciência que o sujeito tem delas mesmas. (CAMPS, 2011). Isso porque, segundo a autora, não somos seres onipotentes e oniscientes, e não podemos ser donos das maneiras como percebemos a realidade, porque ela escapa ao nosso pleno controle, entendimento e assim também ocorre consequentemente com todas as coisas que nos afetam. Por isso somos essencialmente vulneráveis àquilo que nos cerca e afeta enquanto realidade e de maneira imposta, e que independe por vezes, direta ou indiretamente, da ação do sujeito, ou seja, da sua liberdade, e que diante deste outro, o mesmo que diante do real, ou diante do outro na figura deste próprio real, este sujeito só será livre a partir do conflito e do tensionamento que este outro lhe provocará, reafirmando quem este sujeito é de maneira subjetiva frente às tentativas de objetivação deste.


E este entendimento é o único capaz de emancipar verdadeiramente o sujeito, e lhe permitir a governabilidade individual e coletiva de suas vulnerabilidades e faltas, e com isso aprimorar seu exercício de liberdade, ou seja, suas ações, isso porque educa o exercício de conscientização do sujeito pela significação que se quer e pretende dar a si e ao mundo, e o faz permanentemente livre, até mesmo quando age a partir daquele que fundamenta sua práxis, ou seja, em condição ou estado de alienação.


A vontade do sujeito precisa recompreender e repartilhar esta nova/velha compreensão acerca do mundo em que vivemos, sua liberdade e razão, de maneira esclarecida, e a partir deste seu subjetivo ousar saber, compreender a própria existência humana, seus termos e suas possibilidades de mundo.

 

Referências:

CAMPS, V. El gobierno de las emociones. Barcelona: Herder, 2011.

GORZ, A. Ecológica. São Paulo: Annablume, 2010.

LATOUCHE, S. Pequeno tratado do decrescimento sereno. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

 

* Lina Raquel de Oliveira Marinhoé doutora em Filosofia Política pela Universidade da Beira Interior - Pt., autora do livro Decrescimento e consequências humanas (ed. Gramma).

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