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12 out. 2020

Aión, o tempo da infância

Diogo C. Nunes*

 

 

De ao menos três palavras distintas dispunham os gregos para nomear o tempo. Chronos, o tempo que passa e engole seus filhos. Kairós, o momento, o tempo do instante. Enfim, Aión: das mais enigmáticas, aponta para a eternidade, para um tempo que, ao contrário da cronologia, não dispõe de (e/ou não representa) uma sequência.

 

No fragmento 52, Heráclito afirmou que Aión “é criança brincando [...]; de criança o reinado”. Reinado da criança, Aión não é o tempo da inocência, ou do desenvolvimento, noções que somente fazem sentido se inseridas em dada lógica sequencial, mas, ao contrário, da ausência da passagem do tempo. (Ora, a infância como “estágio” do “desenvolvimento” é uma construção, por assim dizer, adulta, que diz respeito não ao “reinado da criança”, mas do adulto – não obstante, do adulto “moderno”).

 

Enquanto brinca, a criança “não vê o tempo passar”, ou seja, sua experiência do tempo desconhece sucessões e linearidades que não estejam em pleno acontecer na própria brincadeira. Deste modo, a eternidade de Aión não é perfeição ou perenidade, mas, ao contrário, como a infância, “pura potência”, abertura e incoerência: “nele o ser e o não-ser se confundem em uma troca permanente de papéis, pois, como criança, ele não se submete às leis da lógica”, como escreveu Miguel Spinelli.

 

O tempo da infância não é exatamente “ilógico”, pois, nele, é a lógica que é impotente. Aión é, assim, a impotência da lógica, que ele, simplesmente, desconhece. Ele “brinca” por entre as proposições, desmentindo-as no interior da própria inferência. É ali, na passagem a um ato conclusivo, que ele mostra sua força ao mesmo tempo inconsequente e frágil: é o “logo”, da lógica, que, em vez de sinalizar a uma passagem racionalmente válida e pretensiosa, se volta contra si mesma. Dizendo de outro modo, o “logo” da infância não é o que dá segurança a um porvir já pressuposto na inferência, um porvir já previsto, um porvir esvaziado de porvir. Seu “logo” é o próprio já.

 

“Passado onírico” é o nome pelo qual Chico Buarque se referiu a um tipo de construção verbal próprio da infância, aquele enunciado pelo “Agora eu era...”. Neste “agora” – o “logo” e o “já” da brincadeira – não se define, pela lógica, nem o que é passado nem o que é futuro. Nem perenidade, nem perfeição, nem inferências – na brincadeira, o “jogo” ainda não impôs suas regras, e o “Agora eu era...”, que revela a impotência lógica do logos, é dito anunciado um gesto porvir. A criança diz “Agora eu era...” e dá um salto em direção a um mundo que se desdobra a partir do puro acontecer de uma narrativa sem roteiro e aberta a quebras e interrupções. Numa delas, das mais fatais e desoladoras, uma voz vinda de fora invade a cena com toda a violência: a voz do tempo lógico, a voz de Chronos, anunciando “a hora de jantar”, ou “a hora de ir para casa”. Num instante antes de engolir a resignação, a criança exclama, reconhecendo sua própria impotência, mas protestando contra ela: “logo agora!”.

* Diogo C. Nunes é historiador, mestre e doutor em Psicologia Social; assessor pedagógico da ENSP/Fiocruz.

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