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28 ago. 2020

O sonho (ou o fantasma?) da ciberdemocracia

Marcelo Fonseca*

 

 

O século XX se encerrou com otimismo para aqueles que nutriam expectativas de ampliação do horizonte democrático da comunicação, que julgaram ser o caso do “ciberuniverso”: o espaço de emancipação do espectador-receptor à categoria de emissor: o bem-vindo e definitivo desfecho das clássicas teorias da manipulação pela mídia, o entusiasmo diante do horizonte aberto para as “ressignificações”, a comemoração da formação de um universo comunicacional pautado essencialmente pelo diálogo. A partir disso, as redes sociais foram imediatamente concebidas como espaço rico para as ações de mobilização política, uma vez que supostamente havia, e ainda haja, liberdade de enunciação e que a estrutura de rede implicava, e implique, ampliação exponencial das diferentes “vozes”.

 

Adentradas duas décadas de século XXI, o otimismo em relação à amplitude dessa comemorada “ciberdemocracia” pede reconsideração, ao menos no que concerne ao que a técnica (o suporte) efetivamente possibilita em termos de discurso e de controle dos fluxos. O que nos mostram os pontos de chegada de alguns “cibereventos” recentes no Brasil, como a surpreendente eleição do governador do estado do Rio de Janeiro e o talvez ainda mais surpreendente movimento terraplanista? Ambos, eleições e movimento terraplanista, tiveram como plataforma principal em suas formações e manutenção as redes sociais. Consideremos apenas o terraplanismo. Isto, que estamos considerando como um “ciberevento”, nos obriga a debruçar sobre o problema da crença, da “fé”, que para um autor como Slavoj Zizek figura já há mais de uma década como um dos temas centrais em sua reflexão política.

 

Nenhuma enunciação parte do zero. Para além do código, existem também, e desde muito cedo nesse processo, pressupostos de ordem estética e de saber, em sentido amplo, que orientam, como paradigmas, a enunciação em seu ato. Esses pressupostos são, em algum nível fundamental, atravessados pela “fé”.

 

Uma das derivações elaboradas por Lacan do conceito freudiano de “transferência” é o seu “sujeito suposto saber”. O que se supõe que saiba este sujeito? Supõe-se que ele saiba do desejo, do “meu” desejo. Ora, o que sustenta essa suposição, que se encontra na base da transferência, é a “fé” – e não só na base da transferência na clínica, mas no que sustenta a posição do mestre na transmissão. Tanto na transferência quanto na transmissão, a “fé” figura como ponto de apoio para o que, no âmbito da enunciação, funciona como deflagrador.

 

Ocorre que as redes sociais – que aqui figuram no centro de outras tantas redes discursivas, que extrapolam o mundo digital –, “estimulam”, pelas características do próprio meio, a enunciação pretensamente liberta da “opressão” do suposto saber daquele sujeito. Entretanto, o que um evento como o terraplanismo nos diz é que o que se tem não é a liberação em relação à suposição de saber, com ênfase no saber (e no desejo), mas a afirmação categórica da “fé” com ênfase na pessoa do sujeito, cuja autoridade sobre a qual se sustenta não mais reside em nenhuma demonstração ou demarcação epistêmica de um saber (uma autoridade simbólica) ou na promessa de um saber sobre o “meu” desejo. É uma autoridade que se esconde por detrás, apenas e essencialmente, de uma duvidosa estética, de um desempenho estético que mascara a miséria do enunciado, cujo conteúdo recorrente é promessa de vingança, e vingança justamente contra quem de alguma maneira sustente, como lugar, o sujeito suposto saber.

 

Desse modo, o exercício da “comunicação democrática” nas redes sociais acaba por formar seguimentos, nichos com fortes nuances ideológicas, cuja distribuição é determinada por aquela “estética duvidosa”, seguimentos formados por certa “partilha sensível” (no sentido de Rancière). O que este regime de partilha implica é que para além das questões de significação como possibilidade (a interpretação), encontramo-nos frente a uma moralidade proveniente do enunciado para o qual parece convergir a “fé”, que se forma em regime de partilha, de uma partilha cujas demarcações de fronteira não têm qualquer razão de ser senão uma “fé” cega, que anterior aí a qualquer enunciação, é uma “fé” que produz, a priori, surdez para além dos limites, com forte carga estética, demarcados por aquele enunciado primeiro com valor de lei. Assim, o falatório do “cibermundo” cria, de fato, um mundo de surdez, um mundo de “tagarelas surdos” como realização mais plena da pressuposta “ciberdemocracia”.

*Marcelo Fonseca é artista visual, mestre em Letras e doutor em Artes (EBA-UFRJ). Professor da FACHA - Faculdades Integradas Helio Alonso.

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