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02 mai. 2021

Escuta, amparo, elaboração:

necessidades psíquicas em tempos de pandemia

 

Alexandre M. T. de Carvalho*

 

 

O sujeito se choca com o imprevisível, que o desorienta.

(Birman, 2014: 7).

 

O ‘improvável’ contraria a lei clássica das probabilidades enquanto o imprevisível e o intempestivo se tornam a norma: “a vertigem e a ameaça do abismo” rondam o sujeito, as subjetividades rodam, giram, em busca de um ponto de referência perdido, quiçá desconhecido.

 

A pandemia COVID-19, que altera o cotidiano, o espaço, o tempo e as relações sociais de forma radicalmente inédita, dá ao texto de Joel Birman (2014) uma concretude inesperada. No caso brasileiro, à vertigem e à ameaça do abismo próprios de uma epidemia causada por um vírus novo, cuja ‘história natural’ ainda não foi escrita, se sobrepõem afetos (como aquilo que mobiliza o sujeito e desencadeia uma reação emocional) não raro nomeados como sensação de insegurança, desamparo e desalento, provocados por atos, palavras e omissões desestabilizadoras da parte de agentes governamentais - agentes que, na expectativa dos que não compartilham dos princípios ultra neoliberais, deveriam ‘pro(mo)ver o melhor ‘suporte’ sanitário possível. A expressão “E daí?”, proferida pelo atual presidente da República em resposta ao aumento avassalador do número de mortes em curto intervalo de tempo por COVID-19, virou uma espécie de enunciado minimalista que sintetiza a sensação de desamparo e o processo em curso.

 

A experiência da vertigem é a de um espaço sem tempo: é a experiência da des-orientação. O tempo é auditivo, exige “escuta” e comunicação pela palavra [linguagem-tempo]. O espaço é visual e somente se organiza no Eu pela escuta que o sustenta, que sustenta a distância entre o Eu e o outro: a audição e o tempo são condições de possibilidade da alteridade. A alteridade pressupõe “o apelo e a demanda endereçada ao outro” (Birman, 2014: 9): faz-se necessário distinguir dor psíquica solipsista de sofrimento psíquico, no plano da subjetividade contemporânea, passando pelas categorias de espaço, tempo, desamparo e desalento (e pela relação entre elas) em perspectiva genealógica.

 

A dor, violentamente narcísica, pede urgente analgesia (ou mesmo anestesia). O sofrimento não pode dispensar as sensações e as percepções. A experiência do sofrimento alteritário requer ultrapassagem da dor psíquica solipsista, passagem do desalento ao desamparo: quem sofre reconhece a escuta do outro e, por meio dessa escuta, se escuta; o sofrimento permite a interlocução que a dor inviabiliza. Fernando Pessoa (1980), no seu ‘Mar Portuguez’ (1921), como a antecipar o horizonte de uma modernidade que, a despeito de inconclusa, já anunciava ao longe seu limiar e seu desaparecimento progressivo (horizonte fade out), dizia: “Quem quere passar além do Bojador / Tem que passar além da dor / Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, / Mas nelle é que espelhou o céu”.

 

Faz-se urgente o resgate da experiência humana do sofrimento (e, quiçá, dialeticamente, da com-pathos) na expectativa de futuro e de passado, contra um presente desalentador que ‘parece’ eterno e é produzido sem cessar pela lógica do capital e suas operações objetivas (no mercado e na política), a fomentar o ‘tempo reificado do capital’ (Mészáros, 2007). Em suma, para muitos sujeitos, será necessário fazer a passagem da dor solipsista ao sofrimento alteritário, condição que possibilita recepção, escuta, amparo e elaboração em análise. Quem cuida do outro, ao acolher, escutar e amparar, propicia as condições básicas de elaboração psíquica. Todavia, quem cuida do outro igualmente carece de acolhimento, escuta, amparo e elaboração; elaboração sempre necessária e de caráter permanente. Há, decerto, um longo trabalho solidário pela frente.

 

 

Referências bibliográficas:

BIRMAN, Joel. O sujeito na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

MÉSZÁROS, István. O desafio e o fardo do tempo histórico. São Paulo: Boitempo, 2007.

PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

 

* Alexandre Magno Teixeira de Carvalho é psicólogo, poeta e psicanalista. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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