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15 out. 2020

Pro-fessar, pro-meter

Diogo C. Nunes*

 

 

É ao menos curioso o vínculo que têm as palavras “professor” e “profeta”. De modos, a princípio, distintos, ambos “professam”, ou seja, toram algo público. Profiteri quer dizer, justamente, publicar. Mas, os verbos fateri, do professor, e phanai, do profeta, embora se aproximem, dizem respeito a ações distintas: enquanto no último temos a acepção mais objetiva do “falar”, o primeiro remete à prática, originalmente religiosa, da confissão.

Como sabemos, nem todo ato de fala realiza uma confissão.

Sobre isso, parece interessante observar a distinção que faz a Psicanálise entre uma fala vazia, um “burburinho”, e uma fala “preenchida pelo ser do sujeito”. Na segunda, temos um engajamento do sujeito e, com ele, a presença do desejo. Nessa fala que confessa e demanda reconhecimento, que presentifica o sujeito do desejo no mundo, temos o aparecer de uma “promessa” e, com ela, com esse ato de engajamento, o tempo futuro – pois o “presente” do desejo é sempre, e necessariamente, saturado de temporalidades pendentes.

Neste ponto talvez possamos ver a diferença mais radical do professor em relação ao profeta. Se fateri nos remete à confissão, mas o pro – à frente, adiante, diante de – faz dessa fala confessional um ato público, sendo pro-fessor aquele que confessa “diante de”, podemos temporalizar, e não somente espacializar, a indicação dada pelo prefixo. Nesta senda, Pro-feta seria aquele que fala “antes”, predizendo o tempo futuro. Pro-fessor, diferentemente, promete “algo” ao tempo futuro.

Tal distinção é radical, pois, no segundo caso, o futuro não está garantido. A confissão que engaja o sujeito, pela fala, no tempo, recusa o próprio tempo como necessidade reconhecendo-o como contingência: o tempo futuro não está dado, mas depende do seu ato de fala engajada, da sua aposta – desejante – no próprio tempo. O professor depende, assim, sem ressalvas, daquele “algo” que é seu objeto de aposta, de promessa: o aluno, os alumni – aquele que não se deixa capturar integralmente pelas luzes que ofuscam a percepção, que recusa qualquer tutoria aprisionadora [1]. O que o professor confessa, publicamente, ao mundo, é que, na figura do aluno, o mundo ainda-não-é e o próprio tempo ainda-não se realizou.

Pois não há tempo porvir senão pelo desejo – e, mais, não há tempo porvir senão por uma aposta engajada, ora, revolucionária, no desejo.

 

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A rigor, pro-phanai e pro-fateri, como dizer, confessar e reconhecer antes, seriam gestos ainda diferentes dos postos em cena com pro-mittere, pro-manthano e pro-mēdea – donde teria se originado o nome do titã Prometeu, como mandar, enviar e pensar com antecedência. A diferença é que no predizer há uma expectativa de antecipação à própria linguagem (dizer antes, reconhecer antes), e, no prometer, trata-se de um envio: um envio para o depois (como no gesto de Prometeu, ao roubar de Zeus o Logos).

Jeffrey Barnouw, trabalhando a palavra mētis na Odisseia, destaca um trecho em que “Athena tells Telemachos to approach Nestor and ‘see what advice (mētin) he has hidden in his breast’”. Se mētin é um aviso escondido no peito, pro-mētis não seria avisar antes do acontecido, mas algo de outra ordem, algo como uma voz que convoca. Ao contrário, assim, da profecia, que prenuncia o futuro, a promessa anuncia um chamado do futuro.

Seria, nos termos de Ernst Bloch, a "voz do amanhã" (ou seja, a Esperança como uma "porta entreaberta") que diz ao sujeito que há uma fresta, que a porta entreaberta está à disposição para ser empurrada.

 

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Outro indício que nos faz vincular o professor ao lugar de enunciação da "promessa" e não do "predizer" é o vínculo entre prometer e pro-manthano.

Manthanein é "aprender", mas que tem, também, uma proximidade, através da raiz men, com mousa, Musa, bem com mousiké. Aprender a ouvir aquela "voz" e aprender a ouvir a Musa, como correspondentes, corroboram a hipótese do vínculo entre promessa e aprendizagem. Isso porque, o que importa, escreveu Ernst Bloch, "é aprender a esperança".

Não obstante, a palavra mousiké, donde se originam tanto Musa quanto música, é também originária de Museu. Os museus, lembremos Walter Benjamin, como "moradas dos sonhos", reúnem o novo transformado em antiguidade. São, deste modo, testemunhos dos sonhos do passado. Aprender a esperar, a ouvir a Musa e ouvir aquela "voz que convoca" não seriam diferentes, assim, daquele “dom", nos termos de Benjamin, próprio do materialista dialético, "de despertar no passado as centelhas da esperança”.

 

A promessa, enfim, que confessa o professor no seu ato público de engajamento pela fala é a de que a realidade ainda não se efetivou, porque é preciso aprender a esperar, ou seja, a despertar as centelhas do não acontecido e empurrar, definitivamente, aquela porta do amanhã. Trata-se de um ato, além de engajado, de inspiração – transpondo, pela fala desejante, à realidade desértica, a convocação que lhe fazem a Musa e a melodia sem som do futuro.

[1] Ver o escrito O que é aluno?

[Texto originalmente publicado no editorial do n. 10 da revista Alumini].

* Diogo C. Nunes é historiador, mestre e doutor em Psicologia Social; assessor pedagógico da ENSP/Fiocruz.

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