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25 abr. 2021

A pétala da primeira palavra

 

Alexandre M. T. de Carvalho*

 

 

A pétala da primeira palavra que, um dia, o filho deixará cair, dizendo-a.

Antonio Carlos Villaça.

 

 

 

O tempo implacável passa, impávido, para as nossas células. Passa, incólume, por entre as células. O tempo histórico do capital nos tritura, provoca percepções estranhas nas entranhas em que se apercebe o tempo, a passagem do tempo.

É um tempo entre.

Prenhe de si mesmo, o tempo inteiro narcísico, e de mais nada. Da prenhez do nada, nada pode nascer. Como negar o nada? Como negar o nada para que dele uma pétala nasça? E da pétala uma gota de orvalho? E da gota de orvalho uma chuva de verão? E da chuva de verão nossos cabelos molhados e o rosto voltado para o alto com um sorriso de bebê que amamentou feliz estampado?

 

Alto, mais alto, um pouco mais, plus... não, não digo o Plus ultra do colonizador espanhol; também não é o mais-valor do capital... terei sido eu, desde sempre, o idiota antipragmático para quem a palavra ultramar significa apenas e tão somente além-mar? Ao mar, despidos de naus!

 

O que eu e você, habitantes e parasitas raramente saprófitos desta crosta terrestre há mais de meio século, temos a fazer? O que fazer diante da mãe que não há mais a plantar a flor da primeira palavra? O que fazer com essas máquinas eletrônicas luminosas e telúricas (porque feitas de minérios, de entranhas da Terra) que nos cegam a ponto de não percebermos que tudo que cai em nossas mãos é telúrico? O que fazer desta Terra?

Cento e quinze anos depois, a pergunta rodou mundo. O mundo mudou, o capital cresceu para dentro a dizimar o fora todo dentro. Por entre o que resta, a questão permanece: o que fazer? Acresceria: o que fazer com as pétalas e as palavras?

 

* Alexandre Magno Teixeira de Carvalho é psicólogo, poeta e psicanalista. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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