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16 fev. 2022

Olhos nos olhos...

 

Alexandre M. T. de Carvalho*

 

 

“Olhos nos olhos... Quero ver o que você diz”. Chico Buarque de Hollanda nos convida a ver o que se diz.

 

Mas, ver o que se diz, o que é isso? Ver o que se diz é ler o que se escreve? Ou será que o que se escreve não se diz? Vale o dito ou vale o escrito? O escrito é lido? O dito é visto? A fala é escutada? Poderia ser fala na letra do Chico, mas aí não rimaria com feliz. Mas, o que se vê quando se diz? O que há para ver? E para se ver?

 

O que se vê na fala do outro é escuta. A escuta vê, mas não pode prescindir da visão, da percepção do tom, da cor, do gesto, do esgar, da ruga semovente, do sorriso, do rubor, enfim, de tantos gestos e sinais que solicitam, no espaço-tempo que delimita a distância entre corpos, ver e ouvir. Mas ouvir também não basta. É preciso escutar. Escutar é mais (um pouco +) do que ouvir. Escutar requer audição, mas não é o suficiente. Escutar é uma operação semiótica. Essa operação semiótica está prejudicada nestes tempos de hipertrofia e paroxismo da imagem em duas dimensões, de imagens de rostos (ou retratos) projetados em telas, telas planas, chatas, tão falsamente iluminadas. Encontros alienados. Alienação semiótica. Olhos que não se veem, sinais perdidos, conexões falhas, escutas danificadas, lá onde tantos pensam que estão a se ver, se escutar, se encontrar. Contudo, sair das telas, ganhar o mundo e recuperar um espaço-tempo sensível e simbólico do possível, não será tarefa fácil.

 

Há máscaras, algumas aderidas aos rostos de tanto medo e tanta dor. Será preciso passar além da dor, além do Bojador, como nos escreve Pessoa. Serão precisos olhares mais ternos e profundos, como aqueles que dobramos com bebês em momentos sublimes. Será preciso reaprender a olhar, recuperar o quase tato que a dobra do olhar consente. Quer ver? Então escuta, reza a máxima do Grupo Galpão. Quer escutar? Então dobra o olhar. A pessoa que nos cabe é a primeira do plural. Carecemos de dobras e mais dobras. É imprescindível, inelidível e inadiável escutar mais para (se) ver melhor as coisas, as pessoas, as palavras. Urge ir além, desbancar e superar a ordem tão funesta que não suporta... “ver tão feliz”.

 

* Alexandre Magno Teixeira de Carvalho é psicólogo, poeta e psicanalista. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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